Kafkas

Digamos que você assopre uma flor e por um ínfimo de segundo,

o céu escuro brilhe de estrelas.

Para que isso serve? É tão claro como o escuro do céu:

- Não serve para nada!

Poetas são especialistas nisto, pensar em soluções que não servem para nada.

Mas isso pode ser um refresco para a mente, em dias quentes algumas almas vivem destes.

Digamos.

Kafkas?


Angenommen, du bläst eine Blume für den Bruchteil einer Sekunde,
Dann leuchtet der Himmel unter den Sternen.

Was nützt es?
Es ist so klar wie das Dunkel des Himmels:

- Es nützt nichts!

Poeten sind darin spezialisiert, denken an Lösungen
welche nichts nützen. Trotzdem kann es deinen Verstand erfrische
an warmen Tagen einige Seelen leben.

Angenommen.

Kafkas?

Tradução: Deise Juliana, jornalista brasileira que reside na Alemanha.

É isso...a águia pousou.

algo de amor

 

 

havia algo de amor

no entrelaçamento da chuva com a mata

uma penetração consentida

de gotas estalando folhas a seco

umedecendo troncos, lambendo bichos, afogando copas

 

havia algo de amor na areia

bebendo os líquidos que escorriam

da sobra azul celeste

ao chão amanhecido de terra ocre

 

havia um transcorrer calmo

nas calhas que alimentavam os risos e os rios

em acasalamentos verdes, escandalosos

 

alguns filhotes prenhes

intumesciam os botões das montanhas

 

agora

se é teu o crânio em vulcão

e não tem solução

arrasta a terra no entorno dos teus lábios

explode o que de cerne encobre

borre as costas dos escritos em branco

ou pode se quiser e preferir

armar o laço das cascavéis no enforcar-se

em sino lânguido de guizos

 

na terra do sol consuma o teu deserto

 

tua cabeça é o vulcão que opera por simpatias

no descanso da cama projeta-se em imensidões de lençóis

Fragmentos

 

Vinha ele lá, sugado pelo hiato do berço e agora finalmente homem a caminhar pela avenida. Trazia só uma certeza nos olhos. O tumulo. E nada o fazia tão semelhante ao nada. Nada o fazia tão nada, quanto estar imerso na multidão. A imensidão de olhares que nada lhe diziam, multiplicava até o limite a sensação asfixiante de sua insignificância. Talvez se cada um ao redor trouxesse ao menos uma placa pendurada no pescoço, com um numero ou uma letra, talvez isso diminuísse a sensação. Colocaria algo sólido em seu peito. Há muito guardava destas coisas dentro do crânio, e colocava diariamente como a colocar flores em um vaso de barro. O porquê de guardar nunca soube. Nunca soube até onde era permitido o limite desta compreensão. Sabia só que depois, com esmeros de pintor, quebraria cada crânio para retirar dali, tintas suficientes para qualquer paisagem. Sabia da exuberância do seu nascimento, nascido assim para produzir sua própria semente. Quem sabe não foi o beijo parasita das orquídeas que sugaram o seu caule. Quem sabe não foi isso que o secou tão rudemente a ponto de oferecer na primavera um inverno de vértebras nuas.

 

Livro em gestação "Macambúzios"

 

...fragmentos

 

 

 

Tudo o que pensas mentes, não o desejado plural do homo sapiens, mas tão somente a conjugação banal em segunda pessoa do verbo mentir. Se pensou , já não pertences mais ao estado virginal das inocências. Eis o porquê das belezas nas pedras, do crer em árvores, pássaros, insetos e demais inócuos viventes. O não pensar isenta o ser das repugnâncias próprias; isenta-o das manipulações proto-pensantes. A árvore é maravilhosa por estar só e eterna em silêncios internos, a árvore não sabe, não conjectura possibilidades do mundo, a árvore vê e o silêncio da sua não-mente traduz tudo.

 

 

 

MACAMBÚZIOS

...fragmentos

Foi um dia amanhecido em modo parede, desses em que a visão estica e cresce para dentro, sem horizontes para voar, ou quando tenta, nas três dimensões, tudo o que toca são arestas de quadrados e foi deste dia que o âmago se engrandeceu e se perdeu em miríades hiperbólicas de idéias haifas, pois sendo a amplidão de quatro paredes impossível de espaços, a sua visão curta passou a alimentar-se de um pensar que pensa saber o que nunca soube. Sentou-se então para ouvir, e ouviu.

Bem aventurados os que não sacrificam um único dia de sol por saberem que são dignos de pena. Bem aventurados os que bebem no cálice das iniqüidades a descrença em repartir corações. Bem aventurados os que gemem em sorrisos o seco e covarde assassinato diário de si. Bem aventurados os que não se espalham nas desordens das sobras e quando saem bebem o aroma silvestre das luas solitárias. Bem aventurados os que saltam da plataforma monótona para o futuro.

E depois que isso foi dito soube da existência de um possível chão forrado de vôos suicidas, magníficos, moídos em vermelho, moídos de um branco em ossos olivas tingindo sobre as pedras o seu óleo fosforescente.

...do meu livro em gestação "Macambúzio"

Robóticos

 

mas eu não posso afirmar

que o ato da minha criação é costurado

de arrebites em latas

 

quero crer-me em bordados de léxicos cânticos,

 

pois ouço já,

os mecânicos em suas oficinas

assoviando pássaros alegres

 

 

O Manto – [série: provocações]

 

O manto de um Senhor criador
Foi a minha primeira proteção a cair por terra
[senti muito frio]
outros mantos depois vieram e
hoje perambulo nu, a olho cru
enlouquecido de incertezas
onde tudo posso e é tão imenso o que posso
que a minha mente apavorada acalma-se

desmancho as substâncias do meu pensamento
e espalho o coalho desse entendimento
por todas as veias do universo
o meu crânio aquece e até onde alcança
o seu esforço esquece

com o tempo também adquiri
essa sensibilidade de prolongamentos,
dos sentimentos esticados além dos sentidos
[os cinco me dados como humano]
e todos os demais adquiridos
das sensações extraterrestres
navego mares e lanço velas
e na escuridão do futuro invento meu próprio manto
recheado de luzes no firmamento

quando o manto protetor caiu
abriu-se um vácuo, com o peso das toneladas ancestrais
que protegem as espécies de suas dúvidas
e o manto caiu não porque eu
com essa tarefa de descobrir-me
quisesse de alguma forma causar mágoas aos crédulos
ou clamar pelas tempestades nos projetos sórdidos
daqueles que alimentam-se como vampiros de aço
em parcerias com as credulidades
não, o manto caiu porque
a ordem natural das minhas coisas era essa
e nem por um segundo me senti maior,
melhor, ou mais feliz,
houve sim um estalar de espantos
de um não saber como fazer o vôo do poder
vôo incrédulo de um beija flor filhote
que caiu do ninho

tripartiu-se

 

O sorriso cansado. Descolado para traz. Confortavelmente assentado no fundo falso do pensamento.

Refletia a fina película da porcelana acumulada. Esgar ridículo. Palhaço insonso. Espelho de reflexos tristes.

 

Pois não!

Pois não!

A dissimulada reverência siamesa. Um dia haveria de cair. E.

 

Ao cair do sol

 

Tripartiu-se

 

O corpo lá

A alma ali

E alguns sentimentos espalhados aqui e acolá

 

Outra coisa agora

Arte disforme. Caos de dupla face

Só possível a perceber-se em cacos

Mas... 

Finalmente amanheceu o girassol alegre

Acho que gaiolas todas abertas a sorrir

Pássaros amanhecidos de alegrias cantantes

Em dias assim límpidos de horizontes próximos

 

Um sorriso de vitrais no mosaico

Aprendiz da flor que oferece a face de leste a oeste

 

Creio que fui longe demais

Agora

Só eu sei onde estou

 

Amigos, amados e outros aflitos.

Gritam!

[...] volte!

 

E eu não vou.

 

Coma da MÃE

 

Eu bebi do teu remédio

para ficar doente em tua companhia

Parceiro da tua dor e agonia

Em paracetamol morfina

O acompanhante de quarto

Afinal, o que você tem, porque não volta do sono?

Em vão busquei respostas

No buscopan composto de nada

 

Paulatinamente ficamos flácidos

Sem pernas para visitas

Sem forças para a canja das dezessete

Sem bocas para bolachas água e sal

 

Agulhas invadem nossas veias

Que insistem em fugir do aço

Com líquidos verdes ineficazes

Unindo nosso sangue umbilical

 

Aliviei tua sede com gaze embebida

Beijei o teu olhar, vazio de febres,

Na translúcida distância

Delirante de alegrias e inseguranças

 

Lá fora a vida abraça o sol

Com o seu frêmito inexorável

No festival diário dos pássaros que amanhecem

No riso das buzinas que zombam da minha cara

 

Cá dentro os corredores cheiram a éter

Só rumor por aqui no silêncio hospitalar,

Um só gemido acolá no labirinto das dores eternas

Vozes que clamam nas masmorras gélidas

 

Enfermeira!

Um médico, por favor,

E o pedido desaparece inválido

Na prancheta do medíocre curandeiro

O calor fica por conta dos anjos de branco

Que transitam urgentes, levitantes.

Com a cruz vermelha carimbada nas asas

Um cheiro acre de urina, fezes, vômitos, sangue.

Aguardando pela limpeza anti-séptica

Luvas elásticas, banho de bacias, madres, comadres.

E uma cruel pergunta que paira

 

- moço o que ela tem?

 

Sei lá moça

Aqui nasce a vida

Aqui a morte morre

Pacto transcendental de infinitos mistérios

Aqui o tempo fica do tamanho

De uma invenção qualquer

Cada um com a sua estória

Solitária e sem importância

Registro de um momento único

Marionete, inerte.

E joguete nas mãos do cara

[tenho profundas mágoas deste jogo]

 

Fiz um carinho em sua face inerme

Ausente de sorrisos

Onde você está agora?

No leito do quarto ou em rios de infância

Minha maior ânsia é saber

Houve um tempo para tua felicidade?

 

Canto solitário todas as suas canções

Caço pelas tuas fantasias de senhora

Choro com vontade de ser forte

E, no entanto impotente.

Para entender a tua inércia

Perdoa-me, mãe!

Fui em busca da tão sonhada força

Só para provar que sabia ser seu filho

 

Cenas de cinema em conta gotas lento

Recortes de lembranças em batimento fraco

Durma, eu cuido da tua capelinha.

Dorme, eu cuido da certidão de óbito.

 

Tum...tum...tum...Parou?

 

Descanse em paz...Mãe.

científico fevereiro

 

não fosse a morte

um estranho cheiro de flores

depositada no vaso

dos

pêsames

lágrimas

e

ladainhas

 

seria apenas

 

a incompreensível fumaça seca sem arrepios de um átomo quântico inicial

 

decaindo azul

 

na imensa interrogação do infinito

poema de dezembro

 

acho que andei achando errado

que sou

arquiteturas de idéias sobre idéias

quis até cravar no cerne dos alicerces

um cimento que segurasse os pés ao profundo

uma argamassa que recobrisse as frestas do espanto

 

mas nada me calou a boca

e não cega nunca aos meus olhos flamejantes de vazios

a quebra do padrão

nada parece que suporta ereto por mais de um segundo

sou mais desconstrução

desarquiteto de demolição

e a minha megalópole é essa que voa

 

olha a estação doida no tempo espacial que me vem agora

só sei do aço esse fabricado de imagens em ação

ontem mesmo vi passando pelos céus

bolhas de indagações dos poetas antigos

nada preso a estacas

e fiquei ali ao pé da estrada pedindo carona

quem quiser que embarque comigo

e tente segurar em pés sem rimas

as novas tempestades

poema de outubro

 

não estou

o que me vês

eu não sou

Acabo de receber da Marilena Matiuzzi 

http://mmatiuzzi.zip.net
 o “meme da página 161.

 

Trata-se disso:

 

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);

2. Abrir na página 161;

3. Procurar a 5ª frase completa;

4. Postar essa frase em seu blog;

5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;

6. Repassar para outros 5 blogs.

 

Dentre os livros que estão ao meu alcance, escolhi sem olhar: o Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa.

 
Eis a frase:


Todas estas coisas não têm importância. São, como tudo no comum da vida, um sono dos mistérios e das ameias, e eu olho, como um arauto chegado, a planície da minha meditação."

 

Passo a bola, então, para:

Márcia Maia
http://www.tabuademares.blogger.com.br/

 

Giovani Pansanato
http://infernoaltoastral.zip.net/

 

Pedro Pan
http://www.porquimeras.blogspot.com/

 

Marcela Ortolan

http://www.metamorfosepensante.blogger.com.br/

Patti Pitombo

http://pattricia33.zip.net/

poema de Setembro

 

a ramalhete

trouxe em si a escolha

de não viver o tempo suficiente

para dar frutos e morrer

 

não secou de velha

 

sangrou de corte

no auge da idade

com perfumes de uma flor

assim Janis Joplin

poema de Agosto

 

Se soubesse que aqui era isso,

ficaria por lá naquilo,

leite e lodo dos girinos,

 

na possibilidade do eterno ovo infecundo,

um sangue suga do farto alimento em berço esplêndido,

alien disforme de tão maravilhado espetáculo,

 

mas deu que - a sorte venceu - na corrida

com seus quatro membros

dois olhos

de insaciável boca,

e cá estou instrumento da procriação

sem rumo

vagindo parias sem pedir licenças.

 

Agora sou o dente quebrado da minha engrenagem, onde estou a carruagem do massacre não roda e o meu gosto trava a língua, trago uma mão carregada de dicionários, e nem tenho palavras que digam, qual é a dimensão desta oferta, fico só na mímica muda, véu de sombras assopradas pelo olho cego, um olhar que brilha amarelado de risos nas faces vazias de convexas, lábios entreabertos e sós, balbuciantes de êxtases estou, de saber-me incompleto na negação da oferta que os vultos passam e esquecem.

 

Mas...

Ao longo da vida juntei alguns caquinhos

nada que sirva para nada

foi só de birra mesmo

[ ver mensagens anteriores ]
UOL

Visitante número: