Fragmentos

 

Vinha ele lá, sugado pelo hiato do berço e agora finalmente homem a caminhar pela avenida. Trazia só uma certeza nos olhos. O tumulo. E nada o fazia tão semelhante ao nada. Nada o fazia tão nada, quanto estar imerso na multidão. A imensidão de olhares que nada lhe diziam, multiplicava até o limite a sensação asfixiante de sua insignificância. Talvez se cada um ao redor trouxesse ao menos uma placa pendurada no pescoço, com um numero ou uma letra, talvez isso diminuísse a sensação. Colocaria algo sólido em seu peito. Há muito guardava destas coisas dentro do crânio, e colocava diariamente como a colocar flores em um vaso de barro. O porquê de guardar nunca soube. Nunca soube até onde era permitido o limite desta compreensão. Sabia só que depois, com esmeros de pintor, quebraria cada crânio para retirar dali, tintas suficientes para qualquer paisagem. Sabia da exuberância do seu nascimento, nascido assim para produzir sua própria semente. Quem sabe não foi o beijo parasita das orquídeas que sugaram o seu caule. Quem sabe não foi isso que o secou tão rudemente a ponto de oferecer na primavera um inverno de vértebras nuas.

 

Livro em gestação "Macambúzios"

 

[ ver mensagens anteriores ]
UOL

Visitante número: